26 DE JULHO DIA MUNDIAL DOS IDOSOS E AVÓS, BPW RONDONÓPOLIS-MT, O ABANDONO NA VELHICE É INACEITÁVEL, PROTEJA NOSSOS IDOSOS.
Com envelhecimento acelerado apontado pelo IBGE, município enfrenta o desafio de garantir dignidade e combater a violência silenciosa contra a terceira idade nos lares locais. Margarida Aracy de Campos e SilvaProfª Aposentada-SEDUC-MT.Mestra em EducaçãoCoordenadora do BPW-SENIOR 60 +Rondonópolis, MT O envelhecimento populacional é uma realidade global, mas suas nuances se manifestam de forma contundente nas realidades locais. Em Rondonópolis, município polo do sudeste de Mato Grosso e reconhecido por sua força econômica no agronegócio, o crescimento urbano e o dinamismo financeiro contrastam com um desafio social invisibilizado, mas urgente: o abandono e a vulnerabilidade da pessoa idosa. Diante de uma transição demográfica acelerada, a sociedade rondonopolitana é convocada a refletir e a agir sob o lema essencial: diga não ao abandono dos idosos. A Realidade Demográfica e a Invisibilidade SocialOs dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a pirâmide etária de Rondonópolis está mudando rapidamente. Com uma população que ultrapassa os 244 mil habitantes, o município abriga mais de 17 mil pessoas com 65 anos ou mais, o que representa cerca de 7,8% do total de moradores. O índice de envelhecimento local atinge a marca de 35,23, demonstrando que a proporção de idosos cresce em ritmo superior ao de gerações anteriores. Rondonópolis abriga inclusive registros notáveis de longevidade extrema, contando com cerca de 30 cidadãos centenários.Apesar de esses números celebrarem o avanço da medicina, do saneamento e das condições de sobrevivência, eles trazem consigo uma responsabilidade estrutural que o município ainda luta para absorver. Em Mato Grosso, a população idosa deu um salto expressivo de 70% em um intervalo de apenas 12 anos. Esse crescimento acelerado não foi acompanhado, na mesma proporção, pela expansão de redes de apoio psicossocial, gerando um vácuo onde a negligência e o desamparo encontram espaço para crescer de forma silenciosa dentro dos lares rondonopolitanos. “Cuidar, respeitar e integrar a população idosa na vida comunitária não é um ato de caridade, mas uma demonstração de maturidade social e civilidade.” As Múltiplas Faces do Abandono na CidadeQuando se discute o abandono de idosos, a imagem imediata construída pelo senso comum é a do desamparo nas ruas ou em praças públicas. Contudo, na dinâmica social de Rondonópolis, essa violência assume contornos bem mais sutis, cotidianos e domésticos. O abandono material e físico se manifesta quando famílias, absortas em rotinas de trabalho exaustivas e na busca por inserção no competitivo mercado de trabalho local, relegam o idoso ao isolamento domiciliar, privando-o de alimentação adequada, higiene e do acompanhamento regular a consultas médicas na rede de saúde. Outra vertente alarmante é o abandono financeiro ou patrimonial. Em muitos lares da periferia e de bairros centrais da cidade, a aposentadoria ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC) recebidos pelo idoso tornam-se a principal — ou única — fonte de renda familiar. Ocorre, então, a retenção indébita de cartões magnéticos e o desvio desses recursos por parte de filhos ou netos, deixando a pessoa idosa desprovida de autonomia financeira para comprar seus próprios medicamentos e mantimentos básicos.A essa violência material soma-se o abandono afetivo inverso. Trata-se da ruptura dos vínculos de carinho, da ausência de diálogo e do distanciamento emocional por parte dos parentes. Esse cenário é frequentemente agravado pelo preconceito etário e pela falta de paciência no trato com idosos que enfrentam declínios cognitivos ou doenças degenerativas, como o Alzheimer. O esquecimento prolongado em leitos hospitalares ou o encaminhamento definitivo para Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), sem a realização de visitas periódicas, materializam a rejeição familiar e institucional. Impactos Psicológicos e Físicos da NegligênciaAs consequências do abandono na terceira idade são devastadoras e aceleram o declínio da saúde de forma global. O ser humano é profundamente dependente das interações sociais e do sentimento de pertencimento. Quando despojado de seu papel ativo na família e na comunidade, o idoso passa a internalizar sentimentos de inutilidade, solidão e rejeição crônica.Psicologicamente, esse isolamento funciona como o principal gatilho para quadros severos de depressão e ansiedade de difícil reversão. Clinicamente, o sofrimento mental repercute diretamente no corpo: há uma perda acentuada de apetite, desidratação, redução da imunidade e o agravamento de doenças crônicas preexistentes, como a hipertensão e o diabetes. Em Rondonópolis, profissionais da assistência social e da saúde frequentemente se deparam com idosos cuja deterioração física acelerada não decorre estritamente da idade biológica, mas sim da profunda tristeza decorrente do esquecimento familiar. O Amparo Legal e os Canais de ProteçãoA proteção à pessoa idosa não é apenas um dever moral, mas uma obrigação legal rigidamente instituída no ordenamento jurídico brasileiro. O artigo 229 da Constituição Federal de 1988 é taxativo ao determinar que os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade. Complementarmente, a Lei nº 10.741/2003 (Estatuto da Pessoa Idosa) tipifica o abandono como crime punível com detenção e multa, estabelecendo penalidades severas para quem expõe a vida ou a saúde do idoso a perigo, seja por privação de alimentos, cuidados indispensáveis ou retenção de proventos. No âmbito municipal, Rondonópolis conta com órgãos dedicados a combater essas violações, como o Conselho Municipal do Idoso (CMI) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS). A população dispõe do canal federal Disque 100 (Disque Direitos Humanos), um serviço gratuito, anônimo e que funciona 24 horas por dia para receber denúncias de violência, abuso e negligência contra a população idosa, encaminhando os casos imediatamente para a apuração das autoridades locais e da Promotoria de Justiça. Conclusão: Construindo uma Cidade AcolhedoraPara reverter o cenário de abandono em Rondonópolis, a punição legal isolada mostra-se insuficiente. O município necessita de uma transformação cultural aliada a políticas públicas robustas. É fundamental fortalecer a rede de atenção básica, expandir os programas de saúde da família com visitas domiciliares focadas na terceira idade e incentivar a criação de “Centros-Dia”, espaços públicos onde os idosos possam passar o período diurno realizando atividades físicas, culturais e de socialização enquanto seus familiares trabalham, retornando para o convívio do lar ao final do dia. Dizer não