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Governo dos EUA chama de “vergonha” perseguição política a Bolsonaro

Publicado 08/07/2025 às 23:46 Ricardo Beariz
porta-voz do Departamento de Estado fala em briefing com bandeiras dos EUA ao fundo
Créditos: Trump cumprimenta Bolsonaro em encontro nos EUA. 07/03/2020 ONLY FOR USE IN SPAIN Alan Santos/Palácio do Planalto / DPA (Europa Press)

O Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou nesta terça-feira como “vergonha” a investigação judicial que, segundo a pasta, vem sendo movida contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. A avaliação foi dada durante o briefing diário a repórteres em Washington. Ao comentar processos no Supremo Tribunal Federal, o porta-voz Matthew Miller afirmou que cortes “perdem legitimidade quando aparentam perseguir opositores políticos” e citou o Brasil como exemplo negativo. A declaração repercutiu de imediato em Brasília e provocou reações no Palácio do Planalto e no Congresso.

Origem e conteúdo da declaração

A pergunta sobre o Brasil surgiu após questionamento de um jornalista norte-americano sobre o ambiente democrático na América Latina. Miller respondeu que os Estados Unidos acompanham com atenção investigações contra ex-mandatários da região e, sem mencionar nomes, disse haver casos em que o Judiciário “extrapola a esfera jurídica”. Diante de insistência, o porta-voz citou Bolsonaro diretamente e classificou o suposto cenário de perseguição como “vergonhoso”. O Departamento de Estado não apresentou documentos nem relatórios para sustentar a afirmação.

Vídeo para entender o contexto

Reações em Brasília

Pouco depois da coletiva, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro considerou a declaração “imprópria” e informou que está analisando o conteúdo para decidir se enviará nota de protesto formal à embaixada norte-americana. Integrantes do governo Lula avaliam que a fala pode prejudicar tratativas em curso sobre financiamento internacional para projetos ambientais.

No Congresso, aliados de Bolsonaro celebraram o que chamaram de endosso oficial à tese de perseguição. Deputados da oposição compartilharam o vídeo do briefing nas redes sociais, com a mensagem “até os EUA reconhecem a farsa”. Parlamentares governistas responderam lembrando que nenhuma instância norte-americana acompanha os autos do Supremo e que o comentário reflete pressão política de grupos conservadores dos Estados Unidos.

Ecos na política norte-americana

A declaração ocorre num contexto de forte mobilização de líderes do Partido Republicano em defesa do ex-presidente brasileiro. Um dia antes, Donald Trump publicou na rede Truth Social que Bolsonaro enfrenta “caça às bruxas semelhante à nossa” e pediu que o Judiciário brasileiro “o deixe em paz”. O comentário de Trump foi replicado por congressistas republicanos, entre eles a deputada María Elvira Salazar, que chamou o ministro Alexandre de Moraes de “juiz ativista”.

Analistas apontam que a Casa Branca evita entrar em debate, mas o Departamento de Estado atende também a pressões do Legislativo norte-americano. Em ano pré-eleitoral nos Estados Unidos, posicionar-se sobre casos judiciais no exterior pode ser usado para demarcar diferenças entre governo democrata e oposição republicana.

Impacto diplomático imediato

Especialistas em relações internacionais avaliam que a fala contribui para ruído diplomático, embora não deva resultar em sanção ou revisão de acordos bilaterais. O Brasil e os Estados Unidos negociam desde maio um fundo de até quatro bilhões de dólares para projetos de preservação da Amazônia. Diplomatas ouvidos reservadamente afirmam que a continuidade das conversas depende de reduzir tensões retóricas.

O professor de direito internacional Marcelo Krohling ressalta que comentários sobre processos judiciais de outro país são incomuns em briefings do Departamento de Estado, principalmente quando envolvem termos como “vergonha”, palavra que tem forte carga valorativa.

Implicações internas no Brasil

A oposição planeja citar a declaração em audiências públicas da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, que discute a legalidade de medidas cautelares contra Bolsonaro. Já o Planalto aposta em apoio do Senado, onde a maioria dos líderes considerou o comentário norte-americano uma ingerência. Para o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, “questões judiciais devem ser tratadas no âmbito interno brasileiro”.

Organizações da sociedade civil ligadas ao combate à desinformação criticaram a utilização isolada da fala para alegar inocência do ex-presidente. Segundo nota da entidade Transparência Eleitoral, decisões do STF são passíveis de crítica, mas precisam ser analisadas com base em fatos processuais, não em declarações genéricas.

Próximos passos

O Itamaraty deve convocar o encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos para explicações preliminares. Caso considere a resposta insatisfatória, pode encaminhar nota diplomática formal. Na prática, o governo brasileiro tende a buscar rápida normalização, já que Washington continua parceiro fundamental em comércio, segurança e clima.

Enquanto isso, o Supremo segue com investigações sobre alegada trama golpista após as eleições de 2022. A corte não se pronunciou oficialmente sobre a fala, mas ministros consultados pela imprensa afirmaram em caráter reservado que decisões judiciais baseiam-se em provas e obedecem ao devido processo legal.

O comentário do Departamento de Estado eleva o tom do debate sobre a situação jurídica de Jair Bolsonaro e adiciona um componente internacional à discussão. O episódio mostra como questões domésticas podem ganhar vulto global quando se cruzam com agendas políticas externas. Se o ruído ficará restrito a declarações ou afetará negociações bilaterais depende dos próximos movimentos de Brasília e Washington.

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Ricardo Beariz

Redator e especialista em mídias sociais no Atitude MT, criando conteúdo que conecta você às notícias do dia dia.

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